Publicado no Estado de Sao Paulo em 09-08-2007
Autor: Leôncio Martins Rodrigues - cientista político, professor titular aposentado dos departamentos de ciência política da USP e da Unicamp.
"Especialista em partidos políticos e sindicalismo, publicou, entre outras obras, Conflito Industrial e Sindicalismo no Brasil, Quem É Quem na Constituinte e Mudanças na Classe Política Brasileira.
Entusiasmado com os bons resultados obtidos nas pesquisas de avaliação de seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu-se com o descontentamento causado pelo caos da aviação no Brasil e, logo em seguida, com as vaias que ouviu em diferentes partes do País. Na opinião do cientista político Leôncio Martins Rodrigues, estudioso de partidos políticos e questões sindicais, o presidente ficou desnorteado e acabou revelando seu lado autoritário.
Na entrevista abaixo, em que analisa os acontecimentos políticos recentes, Leôncio também observa que aumenta nas camadas mais escolarizadas e bem informadas, especialmente nas Regiões Sul e Sudeste do País, um "estado de horror" em relação às incongruências de Lula e ao governo do PT.
Para o presidente, as pessoas que o vaiam estão brincando com a democracia. Como o senhor entendeu essa declaração de Lula?
Em primeiro lugar ela demonstra a dificuldade que tem para receber as críticas ao seu governo. Ele se encontrava muito seguro, assim como os petistas, em razão dos bons índices de aprovação ao seu governo, apontados pelas pesquisas de opinião pública. Mas o caos no sistema aéreo, o acidente da TAM, o episódio com o seu assessor Marco Aurélio Garcia, as vaias na abertura dos Jogos Pan-Americanos, tudo isso perturbou o presidente e revelou o seu lado autoritário - de quem não sabe receber vaias.
O que achou do fato de ele ter atribuído a autoria das vaias a empresários e banqueiros, que teriam ganho muito durante o governo dele?
Vejo isso como uma incrível confissão pública de que governou para os ricos. A classe média e a classe média alta são ingratas, segundo o presidente, porque foram as classes que se beneficiaram enormemente em seu governo. Por outro lado, ao admitir isso ele revelou uma vez mais o estado de perturbação em que se encontra após o acidente e as vaias que ouviu no Rio.
O senhor não considera uma atitude antidemocrática vaiar um presidente eleito com ampla maioria, com 61% dos votos válidos no segundo turno?
Não direi se é antidemocrática ou não. Mas vou lembrar que que a vaia só acontece nas democracias. Elas não acontecem nos regimes autoritários, onde as pessoas, embora tenham mais razões para vaiar, não o fazem, por medo. Também é bom lembrar que as vaias parecem mais aceitáveis quando uma pessoa que ocupa um cargo público se comporta mais como representante de um grupo político do que como administrador. A vaia é menos aceitável quando a autoridade aparece representando uma coletividade mais ampla, um país, um Estado.
É uma forma de protesto?
Sim. É uma forma de protesto daqueles que não têm outra forma para fazê-lo. É sempre uma manifestação coletiva, mais freqüente nas camadas mais baixas do que nas elites.
O presidente também se referiu às eleições, relembrando que terminaram em outubro. Deu a entender, mais uma vez, que a oposição busca ainda o terceiro turno.
Isso não tem sentido. Há um setor grande da população - representado especificamente por pessoas de nível de escolaridade mais alto e com informações sobre o que se passa no governo - que vem sendo tomado por um estado de horror diante do que vê. Refiro-me à situação dos aeroportos, às frases descabidas do presidente, aos erros de português, às incongruências, ao estilo com que ele governa. O acidente da TAM exacerbou esse horror - com as afirmações contraditórias que vieram a seguir, com a ministra dizendo que ia construir um aeroporto, como se ninguém soubesse que uma obra desse tipo demora pelo menos dez anos, e desdizendo logo em seguida. Percebo esse horror ao Lula e ao governo petista principalmente nas Regiões Sudeste e Sul do País. Ele aparece nas conversas, nas trocas de e-mails, na internet. As pessoas se perguntam: como que o Lula se deixa fotografar, numa hora dessas, com uma viola na mão? Esse horror não atinge, no entanto, as pessoas de escolaridade mais baixa, os setores que não têm internet.
E quanto à afirmação desafiadora do presidente Lula, de que ninguém no País sabe colocar mais gente na rua do que ele?
Nesse ponto o presidente não está totalmente equivocado. A classe média, as correntes políticas liberais democráticas sempre tiveram dificuldade para pôr gente na rua. Os partidos de esquerda têm mais capacidade de mobilização - assim como os fascistas, que também tinham partidos de massa. Esta capacidade não decorre do fato de terem mais trabalhadores com eles. Na verdade, os grupos que mais se mobilizam estão no interior do movimento estudantil - que é dominado pela esquerda. Os estudantes são mais disponíveis, porque freqüentemente não trabalham, não têm que sustentar família. Os estudantes se mobilizaram e derrubaram o governo Collor. Para os outros segmentos, especialmente a classe média, é preciso ocorrer uma grande comoção para decidirem ir às ruas. O PSDB, o antigo PFL e outros partidos próximos deles não têm capacidade de mobilização. São partidos eleitorais, não de militância como o PT, especialmente o PT da fase mais antiga.
Acredita que Lula pode puxar movimentos para a rua, se chamar?
Pode puxar a UNE, o Movimento dos Sem-Terra, uma parte do setor sindical... "
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9 de agosto de 2007
Governo ignora decreto e continua sacando com cartões corporativos
Publicado pelo estdao.com em 09-08-2007
(faça suas contas: cada um dos cartões de crédito do governo sacou este ano EM MEDIA, mais de R$ 5.800, em dinheiro. Você que tem cartão corporativo de sua empresa, quanto dinheiro já tirou num caixa com seu cartão, desde que o possui?)
"Segundo o site Congresso em Foco, do total gasto com os cartões este ano, 77% foi sacado
SÃO PAULO - O governo federal não está respeitando o decreto que limita os saques em espécie com os cartões corporativos. Segundo o site Congresso em Foco, o Executivo já gastou mais com cartões corporativos nos primeiros sete meses de 2007 do que durante todo o ano passado. E do total de R$ 45,34 milhões gastos neste ano, 77,7% foram sacados em espécie, para pagar despesas de mais de 6 mil servidores.
Os saques em dinheiro contrariam o Decreto 5.635, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2005. À época, o Ministério do Planejamento afirmou que o objetivo da medida era "reduzir os saques em espécie e dar maior transparência e operacionalidade ao uso do cartão pelos órgãos".
Do total gasto até agora, apenas pouco mais de R$ 9 milhões foram gastos com faturas dos cartões. Os outros quase R$ 36 milhões foram sacados na boca do caixa por seus 6.168 gestores. De acordo com o relatório analisado pelo Congresso em Foco, durante todo o ano de 2006, o gasto com cartões corporativos pelo Executivo foi de R$ 33 milhões.
Ainda segundo o Congresso em Foco, os dados do levantamento mostram que o decreto foi ignorado pelos ordenadores de despesas de 154 órgãos da administração federal, sem considerar as 14 secretarias vinculadas à Presidência da República."
(faça suas contas: cada um dos cartões de crédito do governo sacou este ano EM MEDIA, mais de R$ 5.800, em dinheiro. Você que tem cartão corporativo de sua empresa, quanto dinheiro já tirou num caixa com seu cartão, desde que o possui?)
"Segundo o site Congresso em Foco, do total gasto com os cartões este ano, 77% foi sacado
SÃO PAULO - O governo federal não está respeitando o decreto que limita os saques em espécie com os cartões corporativos. Segundo o site Congresso em Foco, o Executivo já gastou mais com cartões corporativos nos primeiros sete meses de 2007 do que durante todo o ano passado. E do total de R$ 45,34 milhões gastos neste ano, 77,7% foram sacados em espécie, para pagar despesas de mais de 6 mil servidores.
Os saques em dinheiro contrariam o Decreto 5.635, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2005. À época, o Ministério do Planejamento afirmou que o objetivo da medida era "reduzir os saques em espécie e dar maior transparência e operacionalidade ao uso do cartão pelos órgãos".
Do total gasto até agora, apenas pouco mais de R$ 9 milhões foram gastos com faturas dos cartões. Os outros quase R$ 36 milhões foram sacados na boca do caixa por seus 6.168 gestores. De acordo com o relatório analisado pelo Congresso em Foco, durante todo o ano de 2006, o gasto com cartões corporativos pelo Executivo foi de R$ 33 milhões.
Ainda segundo o Congresso em Foco, os dados do levantamento mostram que o decreto foi ignorado pelos ordenadores de despesas de 154 órgãos da administração federal, sem considerar as 14 secretarias vinculadas à Presidência da República."
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1 de agosto de 2007
Comentarios a Diego Casagrande
Enviado por mail em 23 de fevereiro de 2007
Angela,
Duro ler isso...
Vivo fora do país há anos, e dessa quase ilha da fantasia vejo o Brasil afundar mais e mais nesse ciclo de corrupção e impunidade. A impunidade vem de cima. O Exemplo vem de cima. Muito pior do que roubar milhões, os Dirceus, mensaleiros e sapos barbudos roubaram a dignidade, a auto-estima, o senso critico do povo brasileiro. Esgarçaram o tecido social, o senso de ética, confundiram o público com o privado, os interesses coletivos e pessoais, o certo e o errado, o bom e o mau, o ético e o espúrio. Dirceu é mau? Jefferson é bom? Tudo se confunde.
Nosso governo é, obviamente, reflexo do povo que o elegeu, espelho de sua personalidade, e reflete a todos os brasileiros, votantes petistas ou não, que “não adianta, são todos iguais, somos todos iguais.” Os ladrões capitalistas ou empresários pelo menos representavam “os outros”, um “exemplo do mal”, antagônicos ao povo, algo a ser combatido, um inimigo comum que aglutina, como os americamos unem ao oriente médio contra si. “Alí Lulá e os 40 mensaleiros” não. São o povo, uma constatação dura e fria de nossa própria canalhice. Como levantar-nos contra nós mesmos?
Talvez seja necessário olhar para trás, buscando na historia exemplos de recuperação da auto-estima de povos que se sentiram em algum momento estigmatizados coletivamente pelos erros de seus governantes:
Os alemães, estigmatizados pelo nazismo há mais de 60 anos, com todo seu nível educacional e cultural ainda não conseguiram recuperar-se e deixar atrás esta sombra.
Os Russos ainda não se deram conta, e talvez nunca o façam, dos delírios, abusos e descalabros comunistas.
Os Norte-americanos, então, será que algum dia entenderão seu papel de alter-ego do comunismo russo, tão vil, cruel e imoral quanto eles, somente com outras vestes e metodologias?
Norte-coereanos, cambojanos… Pobres seres humanos…
Vejo tudo muito sombrio. Do alto de meu parco conhecimento histórico, não me lembro de nenhum povo que tenha superado um problema de baixa auto-estima coletiva. Talvez você possa saber de algum…
Será que seremos nós os primeiros?
Grande abraço,
Angela,
Duro ler isso...
Vivo fora do país há anos, e dessa quase ilha da fantasia vejo o Brasil afundar mais e mais nesse ciclo de corrupção e impunidade. A impunidade vem de cima. O Exemplo vem de cima. Muito pior do que roubar milhões, os Dirceus, mensaleiros e sapos barbudos roubaram a dignidade, a auto-estima, o senso critico do povo brasileiro. Esgarçaram o tecido social, o senso de ética, confundiram o público com o privado, os interesses coletivos e pessoais, o certo e o errado, o bom e o mau, o ético e o espúrio. Dirceu é mau? Jefferson é bom? Tudo se confunde.
Nosso governo é, obviamente, reflexo do povo que o elegeu, espelho de sua personalidade, e reflete a todos os brasileiros, votantes petistas ou não, que “não adianta, são todos iguais, somos todos iguais.” Os ladrões capitalistas ou empresários pelo menos representavam “os outros”, um “exemplo do mal”, antagônicos ao povo, algo a ser combatido, um inimigo comum que aglutina, como os americamos unem ao oriente médio contra si. “Alí Lulá e os 40 mensaleiros” não. São o povo, uma constatação dura e fria de nossa própria canalhice. Como levantar-nos contra nós mesmos?
Talvez seja necessário olhar para trás, buscando na historia exemplos de recuperação da auto-estima de povos que se sentiram em algum momento estigmatizados coletivamente pelos erros de seus governantes:
Os alemães, estigmatizados pelo nazismo há mais de 60 anos, com todo seu nível educacional e cultural ainda não conseguiram recuperar-se e deixar atrás esta sombra.
Os Russos ainda não se deram conta, e talvez nunca o façam, dos delírios, abusos e descalabros comunistas.
Os Norte-americanos, então, será que algum dia entenderão seu papel de alter-ego do comunismo russo, tão vil, cruel e imoral quanto eles, somente com outras vestes e metodologias?
Norte-coereanos, cambojanos… Pobres seres humanos…
Vejo tudo muito sombrio. Do alto de meu parco conhecimento histórico, não me lembro de nenhum povo que tenha superado um problema de baixa auto-estima coletiva. Talvez você possa saber de algum…
Será que seremos nós os primeiros?
Grande abraço,
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"Lula esconde a sujeira", por Helio Bicudo
Recebido por mail em outubro de 2006
Fonte: Felipe Araujo/AE (não verifricado)
(Nota: para quem não sabe ou já esqueceu, Helio Bicudo foi um dos intelectuais fundadores de PT em suas origens, e em termos gerais é muito respeitado por sua clareza, tanto por partidarios como por adversários. Pelo que sei, renunciou por decisão propria à militancia ao PT quando o mar de lama começou a vir à tona)
UMA CERTEZAHélio Bicudo, petista há 25 anos: "É impossível que Lula não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos"
O jurista Hélio Bicudo, de 83 anos, tem uma longa militância em favor dos direitos humanos, na qual se destaca o combate à ação do Esquadrão da Morte paulista, no fim dos anos 60. Relutou muito antes de decidir manifestar sua opinião sobre o governo Lula e o PT, ao qual é filiado há 25 anos. Decidiu falar incentivado pela família e por alguns amigos, inclusive da base petista. "Não posso admitir que dentro da história que venho construindo, muitas vezes penosamente, eu possa ser considerado partícipe do que está acontecendo", disse Bicudo à editora de VEJA Lucila Soares, a quem concedeu a seguinte entrevista:
O SENHOR ACREDITA QUE O PRESIDENTE LULA SABIA DOS FATOS QUE ESTÃO VINDO A PÚBLICO?
Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.
POR QUE O PRESIDENTE NÃO TOMOU NENHUMA ATITUDE PARA IMPEDIR QUE A SITUAÇÃO CHEGASSE AONDE CHEGOU?
Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma. Seu pronunciamento de sexta-feira confirma. Lula manteve a postura de que não faz parte disso e não abre espaço para uma discussão pública.
HÁ OUTROS EXEMPLOS DESSA CARACTERÍSTICA?
Há um muito claro. Em 1997, presidi uma comissão de sindicância do PT para apurar denúncias contra o empresário Roberto Teixeira, que estava usando o nome de Lula para obter contratos de prefeituras em São Paulo. A responsabilidade dele ficou claríssima. Foi pedida a instalação de uma comissão de ética, e isso foi deixado de lado por determinação de Lula, porque o Roberto Teixeira é compadre dele . O único punido foi o Paulo de Tarso Venceslau, autor da denúncia. Ainda que não existisse necessariamente um crime, havia um problema sério, ético, político, que tinha de ter sido discutido e não foi. Essas coisas todas vão se acumulando e, no final, acontece o que se vê hoje.
ESSES MESMOS SINAIS ESTÃO PRESENTES NO ASSASSINATO DO PREFEITO DE SANTO ANDRÉ, CELSO DANIEL?
A história de Santo André ainda não está clara. Houve uma intervenção do próprio partido para caracterizar o crime como crime comum, do que eu discordo. Houve a eliminação do Celso, ou porque ele não concordava com a corrupção ou porque ele quis interromper o processo num determinado ponto.
O SENHOR FOI VICE-PREFEITO DE MARTA SUPLICY. COMO FOI PARTICIPAR DE UM GOVERNO PETISTA?
O que me realizou na prefeitura foi constituir a Comissão de Direitos Humanos do município. Fora isso, tudo passou ao largo do meu gabinete, por opção de Marta. E, em dezembro de 2004, já no fim do governo, quando assumi interinamente a prefeitura e houve uma chuva muito forte, com graves prejuízos à população, pude verificar que os serviços públicos estavam totalmente omissos. Convoquei uma reunião do secretariado e apareceram dois ou três. Para mim foi uma experiência extremamente negativa.
EM QUE MOMENTO O SENHOR COMEÇOU A PERCEBER QUE O PARTIDO ESTAVA NO CAMINHO ERRADO?
Quando a direção passou a tomar a frente das campanhas políticas. No início a militância era a grande força eleitoral. Isso foi mudando na medida em que o partido começou a abandonar os princípios éticos. A partir da campanha eleitoral de 1998, instalou-se definitivamente a política de atingir o poder a qualquer preço.
O PRESIDENTE LULA TAMBÉM QUERIA CHEGAR AO PODER A QUALQUER PREÇO?
Sim. Mas ele quer a representatividade, sem o ônus do poder. Ele dividiu o governo como se estivéssemos num sistema parlamentarista. É o chefe do Estado, mas não do governo. Nisso há, aliás, uma clara violação da Constituição, que é presidencialista. A conseqüência foi o aparelhamento do Estado, um governo sem projeto e essa tática de alcançar resultados pela corrupção do Congresso Nacional.
O EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU ERA O PRINCIPAL NOME DESSE GRUPO A QUEM LULA DELEGOU O PODER. QUAL SUA AVALIAÇÃO SOBRE ELE?
Dirceu é um trator. Ele é um homem que luta, sem restrição a meios, pelo poder. Está impregnado desse objetivo. Ele é o melhor representante de um grupo que aspirava ao poder pelo poder, não para fazer as reformas que sempre defendemos. O PT chegou ao governo sem projeto. Se Lula quisesse transformar o sonho petista em realidade, poderia ter se cercado de gente que o ajudaria nisso. Pessoas como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Fábio Konder Comparato, Maria Victoria Benevides, Paulo Nogueira Batista Junior trabalharam no programa e foram depois pura e simplesmente deixadas de lado . Foi uma escolha. Que continua. Em vez de buscar as pessoas autênticas, que comungam do ideal que acho que ainda é dele também, Lula se reúne com o Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela) . Para quê?
O SENHOR TAMBÉM SE CONSIDERA DEIXADO DE LADO?
Eu entrei no PT porque achei que devia entrar, ajudei o Lula em vários momentos porque achei que devia ajudar e nunca pedi nada em troca. Ele é que, espontaneamente, me disse que eu assumiria uma posição. Um dia, o ministro Celso Amorim mandou seu chefe-de-gabinete me oferecer um lugar de conselheiro da Unesco. Eu pedi que me explicasse o que representava exatamente essa posição. A resposta foi: "É formidável. Três viagens por ano a Paris ". Ou seja, estavam me oferecendo uma mordomia. Eu não aceitei.
EM ALGUM OUTRO MOMENTO O SENHOR FOI CHAMADO A COLABORAR COM O GOVERNO?
Sim. O então presidente do PT, José Genoíno, me pediu ajuda para convencer meus amigos deputados federais do PT a retirar seu apoio à formação da CPI dos Correios .
EXISTEM ELEMENTOS PARA QUE SE PEÇA O IMPEACHMENT DO PRESIDENTE?
Os fatos podem vir a caracterizar crime de responsabilidade e, portanto, motivar um pedido de impeachment. Mas eu gostaria de lembrar que as primeiras pessoas que pediram o impeachment de Fernando Collor foram o Lula e eu. O pedido foi engavetado. Só quando houve pressão popular é que se concretizou um processo. Se você não tem apoio popular, isso cai numa discussão de juristas que não leva a nada, a não ser ao prejuízo da democracia.
COMO O SENHOR VÊ O FUTURO DO PT?
Depende muito de como esse processo vai prosseguir. Se continuarmos com uma direção chapa-branca, não vamos chegar a lugar algum - a não ser no "desfazimento" de um partido que poderia ter chegado ao poder para realizar as reformas necessárias, mas só conseguiu promover um grande isolamento do Lula.
Fonte: Felipe Araujo/AE (não verifricado)
(Nota: para quem não sabe ou já esqueceu, Helio Bicudo foi um dos intelectuais fundadores de PT em suas origens, e em termos gerais é muito respeitado por sua clareza, tanto por partidarios como por adversários. Pelo que sei, renunciou por decisão propria à militancia ao PT quando o mar de lama começou a vir à tona)
UMA CERTEZAHélio Bicudo, petista há 25 anos: "É impossível que Lula não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos"
O jurista Hélio Bicudo, de 83 anos, tem uma longa militância em favor dos direitos humanos, na qual se destaca o combate à ação do Esquadrão da Morte paulista, no fim dos anos 60. Relutou muito antes de decidir manifestar sua opinião sobre o governo Lula e o PT, ao qual é filiado há 25 anos. Decidiu falar incentivado pela família e por alguns amigos, inclusive da base petista. "Não posso admitir que dentro da história que venho construindo, muitas vezes penosamente, eu possa ser considerado partícipe do que está acontecendo", disse Bicudo à editora de VEJA Lucila Soares, a quem concedeu a seguinte entrevista:
O SENHOR ACREDITA QUE O PRESIDENTE LULA SABIA DOS FATOS QUE ESTÃO VINDO A PÚBLICO?
Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.
POR QUE O PRESIDENTE NÃO TOMOU NENHUMA ATITUDE PARA IMPEDIR QUE A SITUAÇÃO CHEGASSE AONDE CHEGOU?
Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma. Seu pronunciamento de sexta-feira confirma. Lula manteve a postura de que não faz parte disso e não abre espaço para uma discussão pública.
HÁ OUTROS EXEMPLOS DESSA CARACTERÍSTICA?
Há um muito claro. Em 1997, presidi uma comissão de sindicância do PT para apurar denúncias contra o empresário Roberto Teixeira, que estava usando o nome de Lula para obter contratos de prefeituras em São Paulo. A responsabilidade dele ficou claríssima. Foi pedida a instalação de uma comissão de ética, e isso foi deixado de lado por determinação de Lula, porque o Roberto Teixeira é compadre dele . O único punido foi o Paulo de Tarso Venceslau, autor da denúncia. Ainda que não existisse necessariamente um crime, havia um problema sério, ético, político, que tinha de ter sido discutido e não foi. Essas coisas todas vão se acumulando e, no final, acontece o que se vê hoje.
ESSES MESMOS SINAIS ESTÃO PRESENTES NO ASSASSINATO DO PREFEITO DE SANTO ANDRÉ, CELSO DANIEL?
A história de Santo André ainda não está clara. Houve uma intervenção do próprio partido para caracterizar o crime como crime comum, do que eu discordo. Houve a eliminação do Celso, ou porque ele não concordava com a corrupção ou porque ele quis interromper o processo num determinado ponto.
O SENHOR FOI VICE-PREFEITO DE MARTA SUPLICY. COMO FOI PARTICIPAR DE UM GOVERNO PETISTA?
O que me realizou na prefeitura foi constituir a Comissão de Direitos Humanos do município. Fora isso, tudo passou ao largo do meu gabinete, por opção de Marta. E, em dezembro de 2004, já no fim do governo, quando assumi interinamente a prefeitura e houve uma chuva muito forte, com graves prejuízos à população, pude verificar que os serviços públicos estavam totalmente omissos. Convoquei uma reunião do secretariado e apareceram dois ou três. Para mim foi uma experiência extremamente negativa.
EM QUE MOMENTO O SENHOR COMEÇOU A PERCEBER QUE O PARTIDO ESTAVA NO CAMINHO ERRADO?
Quando a direção passou a tomar a frente das campanhas políticas. No início a militância era a grande força eleitoral. Isso foi mudando na medida em que o partido começou a abandonar os princípios éticos. A partir da campanha eleitoral de 1998, instalou-se definitivamente a política de atingir o poder a qualquer preço.
O PRESIDENTE LULA TAMBÉM QUERIA CHEGAR AO PODER A QUALQUER PREÇO?
Sim. Mas ele quer a representatividade, sem o ônus do poder. Ele dividiu o governo como se estivéssemos num sistema parlamentarista. É o chefe do Estado, mas não do governo. Nisso há, aliás, uma clara violação da Constituição, que é presidencialista. A conseqüência foi o aparelhamento do Estado, um governo sem projeto e essa tática de alcançar resultados pela corrupção do Congresso Nacional.
O EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU ERA O PRINCIPAL NOME DESSE GRUPO A QUEM LULA DELEGOU O PODER. QUAL SUA AVALIAÇÃO SOBRE ELE?
Dirceu é um trator. Ele é um homem que luta, sem restrição a meios, pelo poder. Está impregnado desse objetivo. Ele é o melhor representante de um grupo que aspirava ao poder pelo poder, não para fazer as reformas que sempre defendemos. O PT chegou ao governo sem projeto. Se Lula quisesse transformar o sonho petista em realidade, poderia ter se cercado de gente que o ajudaria nisso. Pessoas como Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Fábio Konder Comparato, Maria Victoria Benevides, Paulo Nogueira Batista Junior trabalharam no programa e foram depois pura e simplesmente deixadas de lado . Foi uma escolha. Que continua. Em vez de buscar as pessoas autênticas, que comungam do ideal que acho que ainda é dele também, Lula se reúne com o Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela) . Para quê?
O SENHOR TAMBÉM SE CONSIDERA DEIXADO DE LADO?
Eu entrei no PT porque achei que devia entrar, ajudei o Lula em vários momentos porque achei que devia ajudar e nunca pedi nada em troca. Ele é que, espontaneamente, me disse que eu assumiria uma posição. Um dia, o ministro Celso Amorim mandou seu chefe-de-gabinete me oferecer um lugar de conselheiro da Unesco. Eu pedi que me explicasse o que representava exatamente essa posição. A resposta foi: "É formidável. Três viagens por ano a Paris ". Ou seja, estavam me oferecendo uma mordomia. Eu não aceitei.
EM ALGUM OUTRO MOMENTO O SENHOR FOI CHAMADO A COLABORAR COM O GOVERNO?
Sim. O então presidente do PT, José Genoíno, me pediu ajuda para convencer meus amigos deputados federais do PT a retirar seu apoio à formação da CPI dos Correios .
EXISTEM ELEMENTOS PARA QUE SE PEÇA O IMPEACHMENT DO PRESIDENTE?
Os fatos podem vir a caracterizar crime de responsabilidade e, portanto, motivar um pedido de impeachment. Mas eu gostaria de lembrar que as primeiras pessoas que pediram o impeachment de Fernando Collor foram o Lula e eu. O pedido foi engavetado. Só quando houve pressão popular é que se concretizou um processo. Se você não tem apoio popular, isso cai numa discussão de juristas que não leva a nada, a não ser ao prejuízo da democracia.
COMO O SENHOR VÊ O FUTURO DO PT?
Depende muito de como esse processo vai prosseguir. Se continuarmos com uma direção chapa-branca, não vamos chegar a lugar algum - a não ser no "desfazimento" de um partido que poderia ter chegado ao poder para realizar as reformas necessárias, mas só conseguiu promover um grande isolamento do Lula.
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30 de julho de 2007
Skidmore comentado
Comentarios à Revista Amanhã- Edição 217 -Janeiro/Fevereiro de 2006 - Entrevista ao brasilianista Thomas Skidmore:
Genial a lucidez deste Skidmore. É interessante a capacidade de análise que a isenção da distancia dá. O diagnóstico dele é, na minha opinião, muito acertado. Só faltou agregar que Lula, por inocente ou por conivente, abriu espaço para um projeto político arraigadamente corrupto. Políticos de origens burguesas podem financiar-se da corrupção privada e entregar em troca atos e contratos de governo. o PT, antagônico à maioria do empresariado, teve que mamar desbragadamente e diretamente nas tetas dos governos, primeiro municipais e depois federal, para lutar "de igual para igual" com as demais forcas políticas. Atos inocentes como receber jipes importados demonstram a imaturidade da maquina de corrupção do PT. São todos igualmente podres, mas o PT fez um grande favor ao Brasil. Escrachou a corrupção aos olhos de todos, fez com que os eleitores brasileiros reflitam sobre o real peso de seus votos, e sobre a grande pergunta: Se o PT é o primeiro governo do povo, isso quer dizer somos todos iguais?
Agora a oposição tem uma tarefa muito delicada: lidar com este novo paradigma do nível de tolerância do povo à corrupção, e ao mesmo tempo bater no governo PT na medida certa. Se bater demais, cai o governo e será trágico para o Brasil. Se bater de menos, lula se reelege extremamente fraco e só, e será ainda mais trágico para o Brasil viver outros 4 anos das orgias de "novos -corruptos" e oportunistas. Lula queimou todos seus cartuchos e alguns mais no primeiro mandato. Serão 4 anos de desgoverno e loucura que podem nem chegar no final.
A oposição vai ter que atuar de forma muito precisa: fazê-lo chegar moribundo ao fim do ano, mas sem morrer. Espero que sejam capazes para o bem de todos, inclusive do próprio Lula, que se transformou num prisioneiro do navio que aparentemente capitaneou. Na realidade é só um boneco de palha amarrado ao leme. Mas os chacais que realmente levavam o barco estão morrendo todos, por doentes, por devorar-se entre eles. E Lula está lá, só em um barco-fantasma à deriva.
Sorte aos passageiros, todos nos.
Genial a lucidez deste Skidmore. É interessante a capacidade de análise que a isenção da distancia dá. O diagnóstico dele é, na minha opinião, muito acertado. Só faltou agregar que Lula, por inocente ou por conivente, abriu espaço para um projeto político arraigadamente corrupto. Políticos de origens burguesas podem financiar-se da corrupção privada e entregar em troca atos e contratos de governo. o PT, antagônico à maioria do empresariado, teve que mamar desbragadamente e diretamente nas tetas dos governos, primeiro municipais e depois federal, para lutar "de igual para igual" com as demais forcas políticas. Atos inocentes como receber jipes importados demonstram a imaturidade da maquina de corrupção do PT. São todos igualmente podres, mas o PT fez um grande favor ao Brasil. Escrachou a corrupção aos olhos de todos, fez com que os eleitores brasileiros reflitam sobre o real peso de seus votos, e sobre a grande pergunta: Se o PT é o primeiro governo do povo, isso quer dizer somos todos iguais?
Agora a oposição tem uma tarefa muito delicada: lidar com este novo paradigma do nível de tolerância do povo à corrupção, e ao mesmo tempo bater no governo PT na medida certa. Se bater demais, cai o governo e será trágico para o Brasil. Se bater de menos, lula se reelege extremamente fraco e só, e será ainda mais trágico para o Brasil viver outros 4 anos das orgias de "novos -corruptos" e oportunistas. Lula queimou todos seus cartuchos e alguns mais no primeiro mandato. Serão 4 anos de desgoverno e loucura que podem nem chegar no final.
A oposição vai ter que atuar de forma muito precisa: fazê-lo chegar moribundo ao fim do ano, mas sem morrer. Espero que sejam capazes para o bem de todos, inclusive do próprio Lula, que se transformou num prisioneiro do navio que aparentemente capitaneou. Na realidade é só um boneco de palha amarrado ao leme. Mas os chacais que realmente levavam o barco estão morrendo todos, por doentes, por devorar-se entre eles. E Lula está lá, só em um barco-fantasma à deriva.
Sorte aos passageiros, todos nos.
Thomas Skidmore
Entrevista do brasilianista Thomas Skidmore à Revista Amanhã - Edição 217 - Janeiro/Fevereiro de 2006
O brasilianista Thomas Skidmore compara o presidente Lula a Jânio Quadros e Collor
("eram todos loucos") e garante: só uma profunda reforma política será capaz de livrar o país das maluquices das urnas
Por Marcos Graciani
Já se vão 37 anos desde que Thomas Skidmore começou a estudar o Brasil. Natural de Ohio, nos Estados Unidos, Skidmore migrou para o calor do Rio de Janeiro no início dos anos 60 e, logo depois do golpe militar, lançou seu primeiro livro: Politics in Brazil 1930-1964: An Experiment in Democracy. A obra se tornou um clássico entre os "brasilianistas" - como são conhecidos os estrangeiros que estudam o Brasil. Hoje, aos 73 anos, ele dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brown, nas proximidades de Boston. Se o conhecimento acumulado na carreira foi suficiente para entender o país? "Só às vezes", responde ele, rindo. "Aí o Brasil elege um louco e não se entende mais nada", arremata nesta entrevista concedida a AMANHÃ.
Revista Amanhã - Na posição de quem já estudou exaustivamente a história político-econômica do Brasil, suas crises e seus presidentes, como o senhor avalia o desempenho do presidente Lula?
Thomas Skidmore - Eu acho que na comparação com os outros presidentes, Lula é uma tragédia. Ele deixou a impressão de que a corrupção penetra em todas as instâncias do governo. Simplesmente abalou a legitimidade do Planalto perante o público. É uma pena. Lula começou com muitas idéias boas e com muito apoio popular. Mas sua base de governo acabou buscando o caminho errado para comandar a selva do Congresso: a propina. Talvez ele ache que isso tenha sido feito por todos os presidentes, e é bem possível que esteja certo. O problema é que coisas como o "mensalão" vieram à tona na gestão dele, e não nas anteriores.
RA - A corrupção é uma parte indissociável da política brasileira?
TS - É difícil de dizer. Por definição, a corrupção ocorre em segredo. Você não pode chegar para um deputado e simplesmente perguntar o quanto ele recebe de propina. Há apenas uma especulação. Particularmente, acho que sempre houve corrupção em todas as democracias, sim. E também em todos os sistemas autoritários. Os analistas, muitas vezes, tentam falar em percentuais de políticos corruptos. Falam em 10%, 20%... No caso do PT, a questão da corrupção foi com o Congresso. E isso é interessante: não foi só com empresários ou homens de negócios, tal como na era de Juscelino Kubitschek.
RA - Como assim? O que ocorria no tempo de JK?
TS - Era o tipo de gatunagem típica entre o setor público e privado. "Ah, você vai me apoiar na política? Então vou te arrumar um serviço no governo federal depois." Isso foi muito comum naquela época. Muitas pessoas ganharam lugar no governo por influência de políticos e apadrinhados. E isso, ainda hoje, é comum em todos os governos. Mas é impossível medir o tamanho - depende das confabulações e dos contextos. No caso de Lula, porém, a reação à descoberta do problema foi muito pior. Ele se dizia uma virgem, e uma virgem que peca sempre causa mais polêmica do que um pecador.No ano passado, dizendo-se incompreendido, Lula se comparou a Getúlio Vargas, JK e Jango. Em que pontos a situação de Lula pode ser comparada à desses presidentes?Não vejo nenhuma comparação. Vargas, por exemplo, nunca perdeu o sentido de seu trabalho. Pelo contrário, estava sempre no controle. Juscelino Kubitschek também foi um político de muita desenvoltura, apesar dos pesares. Podemos é comparar Lula com Collor, pelo menos no que diz respeito à loucura. Collor era um louco. No governo, viveu uma fantasia, perdeu o controle e também tentou negar a realidade. Outro louco foi o Jânio Quadros. Ao longo da gestão, ele perdeu o senso de direção. Nem mesmo um psiquiatra seria capaz de explicar os acontecimentos que marcaram o fim do governo Jânio e o esfacelamento de sua capacidade de liderança. No caso do Lula, portanto, eu prefiriria compará-lo a Collor e Jânio Quadros. O resto não tem comparação.
RA - Não parece injusto comparar a situação de Lula com a de Collor? Afinal, Collor teve seu impeachment pedido em coro nacional...
TS - O caso de Lula, na verdade, é ainda mais complicado do que o de Collor e Jânio. Lula é um coitado. Está desnorteado, não entende o ambiente onde se meteu. Ele é ingênuo. Os outros pelo menos sabiam o que estava acontecendo.
RA - Analisando o Brasil desde a restauração da democracia, em que ponto o senhor diria que o sistema eleitoral falhou?
TS - Depois desse escândalo do governo do PT, eu diria que o sistema presidencial como um todo se mostrou inviável para o Brasil. O país deveria repensar seu sistema político desde os fundamentos. Nada menos do que quatro presidentes brasileiros foram destituídos no período democrático: Getúlio Vargas, Jango, Jânio e depois Collor. E agora temos o Lula, que não chegou a ser destituído, mas que praticamente perdeu a capacidade de governar. Isso mostra que há algo errado no sistema presidencial brasileiro. Talvez a solução seja o Parlamentarismo, não sei. Mas é necessário repensar o sistema brasileiro pela base, pois ele não está funcionando bem.
RA - O senhor já disse que o Brasil deveria resgatar os ideais de desenvolvimento dos anos 60 - um período em que as eleições foram deixadas de lado. Na sua opinião, o país esgotou as chances de eleger democraticamente um presidente capaz de garantir um crescimento como o daquela época?
TS - A grande questão é que o eleitor brasileiro ainda dá chance a "salvadores da pátria". Seria preciso um exército de anjos para que isso desse certo. Espero que o Brasil esteja imunizado contra salvadores da pátria, apesar do momento difícil pelo qual passa. O que o país mais precisa é de um homem majoritário que tenha a capacidade de ser um líder."O presidencialismo não serve para o Brasil: nada menos que quatro presidentes foram destituídos. Lula ainda não foi, mas já perdeu a capacidade de governar"
RA - Na sua visão, Lula tem condições de ser esse homem numa eventual reeleição?
TS - Não. Lula ficou anestesiado ante a crise. Perdeu o controle das emoções, e até defendeu a mãe em seus discursos. Esse negócio de defender a mãe é um sinal típico do político que não sabe o que fazer. Eu acho que o Lula ficou desnorteado em Brasília. Ele fica lá, rodeado de conselheiros e, quando pode, se distrai com a idéia de viajar, de receber presidentes de outros países. Ele não tem a tranqüilidade de um político experiente nesses protocolos. Infelizmente, parece que o Lula não teve a capacidade de manter o balanço mental em uma situação que o deixava confuso. Na minha opinião, o Brasil está assistindo, praticamente,à desintegração de um homem.
O brasilianista Thomas Skidmore compara o presidente Lula a Jânio Quadros e Collor
("eram todos loucos") e garante: só uma profunda reforma política será capaz de livrar o país das maluquices das urnas
Por Marcos Graciani
Já se vão 37 anos desde que Thomas Skidmore começou a estudar o Brasil. Natural de Ohio, nos Estados Unidos, Skidmore migrou para o calor do Rio de Janeiro no início dos anos 60 e, logo depois do golpe militar, lançou seu primeiro livro: Politics in Brazil 1930-1964: An Experiment in Democracy. A obra se tornou um clássico entre os "brasilianistas" - como são conhecidos os estrangeiros que estudam o Brasil. Hoje, aos 73 anos, ele dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brown, nas proximidades de Boston. Se o conhecimento acumulado na carreira foi suficiente para entender o país? "Só às vezes", responde ele, rindo. "Aí o Brasil elege um louco e não se entende mais nada", arremata nesta entrevista concedida a AMANHÃ.
Revista Amanhã - Na posição de quem já estudou exaustivamente a história político-econômica do Brasil, suas crises e seus presidentes, como o senhor avalia o desempenho do presidente Lula?
Thomas Skidmore - Eu acho que na comparação com os outros presidentes, Lula é uma tragédia. Ele deixou a impressão de que a corrupção penetra em todas as instâncias do governo. Simplesmente abalou a legitimidade do Planalto perante o público. É uma pena. Lula começou com muitas idéias boas e com muito apoio popular. Mas sua base de governo acabou buscando o caminho errado para comandar a selva do Congresso: a propina. Talvez ele ache que isso tenha sido feito por todos os presidentes, e é bem possível que esteja certo. O problema é que coisas como o "mensalão" vieram à tona na gestão dele, e não nas anteriores.
RA - A corrupção é uma parte indissociável da política brasileira?
TS - É difícil de dizer. Por definição, a corrupção ocorre em segredo. Você não pode chegar para um deputado e simplesmente perguntar o quanto ele recebe de propina. Há apenas uma especulação. Particularmente, acho que sempre houve corrupção em todas as democracias, sim. E também em todos os sistemas autoritários. Os analistas, muitas vezes, tentam falar em percentuais de políticos corruptos. Falam em 10%, 20%... No caso do PT, a questão da corrupção foi com o Congresso. E isso é interessante: não foi só com empresários ou homens de negócios, tal como na era de Juscelino Kubitschek.
RA - Como assim? O que ocorria no tempo de JK?
TS - Era o tipo de gatunagem típica entre o setor público e privado. "Ah, você vai me apoiar na política? Então vou te arrumar um serviço no governo federal depois." Isso foi muito comum naquela época. Muitas pessoas ganharam lugar no governo por influência de políticos e apadrinhados. E isso, ainda hoje, é comum em todos os governos. Mas é impossível medir o tamanho - depende das confabulações e dos contextos. No caso de Lula, porém, a reação à descoberta do problema foi muito pior. Ele se dizia uma virgem, e uma virgem que peca sempre causa mais polêmica do que um pecador.No ano passado, dizendo-se incompreendido, Lula se comparou a Getúlio Vargas, JK e Jango. Em que pontos a situação de Lula pode ser comparada à desses presidentes?Não vejo nenhuma comparação. Vargas, por exemplo, nunca perdeu o sentido de seu trabalho. Pelo contrário, estava sempre no controle. Juscelino Kubitschek também foi um político de muita desenvoltura, apesar dos pesares. Podemos é comparar Lula com Collor, pelo menos no que diz respeito à loucura. Collor era um louco. No governo, viveu uma fantasia, perdeu o controle e também tentou negar a realidade. Outro louco foi o Jânio Quadros. Ao longo da gestão, ele perdeu o senso de direção. Nem mesmo um psiquiatra seria capaz de explicar os acontecimentos que marcaram o fim do governo Jânio e o esfacelamento de sua capacidade de liderança. No caso do Lula, portanto, eu prefiriria compará-lo a Collor e Jânio Quadros. O resto não tem comparação.
RA - Não parece injusto comparar a situação de Lula com a de Collor? Afinal, Collor teve seu impeachment pedido em coro nacional...
TS - O caso de Lula, na verdade, é ainda mais complicado do que o de Collor e Jânio. Lula é um coitado. Está desnorteado, não entende o ambiente onde se meteu. Ele é ingênuo. Os outros pelo menos sabiam o que estava acontecendo.
RA - Analisando o Brasil desde a restauração da democracia, em que ponto o senhor diria que o sistema eleitoral falhou?
TS - Depois desse escândalo do governo do PT, eu diria que o sistema presidencial como um todo se mostrou inviável para o Brasil. O país deveria repensar seu sistema político desde os fundamentos. Nada menos do que quatro presidentes brasileiros foram destituídos no período democrático: Getúlio Vargas, Jango, Jânio e depois Collor. E agora temos o Lula, que não chegou a ser destituído, mas que praticamente perdeu a capacidade de governar. Isso mostra que há algo errado no sistema presidencial brasileiro. Talvez a solução seja o Parlamentarismo, não sei. Mas é necessário repensar o sistema brasileiro pela base, pois ele não está funcionando bem.
RA - O senhor já disse que o Brasil deveria resgatar os ideais de desenvolvimento dos anos 60 - um período em que as eleições foram deixadas de lado. Na sua opinião, o país esgotou as chances de eleger democraticamente um presidente capaz de garantir um crescimento como o daquela época?
TS - A grande questão é que o eleitor brasileiro ainda dá chance a "salvadores da pátria". Seria preciso um exército de anjos para que isso desse certo. Espero que o Brasil esteja imunizado contra salvadores da pátria, apesar do momento difícil pelo qual passa. O que o país mais precisa é de um homem majoritário que tenha a capacidade de ser um líder."O presidencialismo não serve para o Brasil: nada menos que quatro presidentes foram destituídos. Lula ainda não foi, mas já perdeu a capacidade de governar"
RA - Na sua visão, Lula tem condições de ser esse homem numa eventual reeleição?
TS - Não. Lula ficou anestesiado ante a crise. Perdeu o controle das emoções, e até defendeu a mãe em seus discursos. Esse negócio de defender a mãe é um sinal típico do político que não sabe o que fazer. Eu acho que o Lula ficou desnorteado em Brasília. Ele fica lá, rodeado de conselheiros e, quando pode, se distrai com a idéia de viajar, de receber presidentes de outros países. Ele não tem a tranqüilidade de um político experiente nesses protocolos. Infelizmente, parece que o Lula não teve a capacidade de manter o balanço mental em uma situação que o deixava confuso. Na minha opinião, o Brasil está assistindo, praticamente,à desintegração de um homem.
Cartas de Brasilia
Ai, ai, ai...
Jueves, 13 de Noviembre de 2003
De: Cnobre
Para: AS
Li isso e não pude deixar de te mandar. É o editorial do Estado de hoje e reforça o que escrevi antes. A semente plantada pelo trabalho do qual você participou tem que estar germinando:
"Assim como se disse do discurso em que defendeu a integração militar da América do Sul, pode-se dizer do desabafo do ministro da Casa Civil, José Dirceu, sobre a sua cansativa luta contra as deficiências da máquina estatal, que mistura coisas verdadeiras com outras nem tanto.
De um lado, a constatação de que o governo tem burocracia demais e eficiência de menos, o que exige "trabalhar cada vez mais para reformar o Estado". De outro, a frase: "Precisamos lembrar como encontramos a administração pública do Brasil." A afirmação é duplamente contestável. Primeiro, porque sugere ter sido um descalabro a gestão do governo anterior. Isso é falso. Embora a modernização do aparelho federal tenha ficado aquém do que pretendia o presidente Fernando Henrique – até em razão das resistências corporativas estimuladas pelo PT –, ele não só tinha uma visão do problema mais avançada do que a do seu sucessor, como ainda lhe entregou um Estado menos arcaico do que recebera. Segundo, porque, qualquer que fosse a situação que o novo governo encontrou, quase sempre conseguiu piorá-la, antes de mais nada devido à sua obsessão em reinventar a roda.
O corpanzil burocrático tornou-se ainda mais volumoso, com a proliferação de ministérios e secretarias inventados para mostrar "vontade política" de resolver problemas e, sobretudo, acomodar companheiros malsucedidos nas urnas. Diversos destes se revelaram tão incompetentes para administrar os seus setores quanto haviam sido para conquistar o eleitor. Com atribuições não raro redundantes, resultado inevitável da hipertrofia do corpo burocrático, ficaram batendo cabeça e tentando passar rasteiras uns nos outros. Além de transformar o Executivo em um espécime pesado em excesso para se mover e trapalhão em excesso para achar o bom caminho, os recém-chegados promoveram o maior entra- e-sai nos níveis superiores e médios do aparato federal pelo menos desde o fim do regime militar, em 1985. Foi a apoteose do aparelhamento – a premiação daqueles cuja credencial mais luzidia é a carteirinha partidária, com o afastamento de administradores capacitados e experientes em navegar pela burocracia.
No Brasil nunca faltaram governos marcados pelo nepotismo – hoje mesmo, o do Paraná de Roberto Requião é um escândalo. Já a marca do governo Lula é a do "nepetismo", a distribuição da massa disponível de cargos de confiança entre os quadros do PT e das siglas aliadas, com as conseqüências que se viu, por exemplo, no desfiguramento do outrora modelar Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.
Outra característica que deve contribuir para o cansaço do ministro Dirceu é a baixa qualidade do processo decisório. O verdadeiro parto que foi o projeto sobre os transgênicos enviado semanas atrás ao Congresso e os graves defeitos congênitos do texto enfim dado à luz são apenas um tropeço entre muitos de um governo que lida mal com as próprias pernas. Mesmo quando um ministro ou o presidente identificam corretamente um problema a resolver, a forma de fazê-lo lembra muitas vezes a proverbial emenda pior que o soneto. Nesse sentido, a suspensão da aposentadoria aos jubilados com mais de 90 anos, enquanto não se recadastrassem, é um caso de manual. O Ministério da Previdência sabe que paga benefícios a pessoas já falecidas e quer acabar com essa fraude. Pois bem. De todas as formas concebíveis de enfrentar a questão, adotou a mais primitiva, com o típico vezo autoritário dos poderosos de turno de não parar para pensar no que o seu imaginário ovo de Colombo representaria para as pessoas de carne e osso.
O presidente Lula acaba de fazer a sua parte nessa seqüência de equívocos. O Congresso havia aprovado – com parecer favorável do Ministério da Educação – o repasse de recursos do Fundo para o Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental (Fundef) para instituições de ensino sem fins lucrativos que acolham alunos portadores de deficiência. Isso contraria pela base a emenda constitucional que criou o Fundef, exclusivo para a rede pública. Pois bem. Por não ter oferecido outra alternativa durante a tramitação da matéria, só restou ao presidente vetar a lei. Mas o fez de supetão – o ato caiu no Legislativo como um raio em céu azul – e, o que é pior, sob o antipático argumento de que a iniciativa comprometeria o ajuste fiscal. Até parlamentares do PT reagiram com indignação. Armada a encrenca, só então o presidente se lembrou de cobrar do ministro da Educação uma fórmula para os alunos excepcionais. O governo Lula precisa de uma urgente revisão."
Jueves, 13 de Noviembre de 2003
De: Cnobre
Para: AS
Li isso e não pude deixar de te mandar. É o editorial do Estado de hoje e reforça o que escrevi antes. A semente plantada pelo trabalho do qual você participou tem que estar germinando:
"Assim como se disse do discurso em que defendeu a integração militar da América do Sul, pode-se dizer do desabafo do ministro da Casa Civil, José Dirceu, sobre a sua cansativa luta contra as deficiências da máquina estatal, que mistura coisas verdadeiras com outras nem tanto.
De um lado, a constatação de que o governo tem burocracia demais e eficiência de menos, o que exige "trabalhar cada vez mais para reformar o Estado". De outro, a frase: "Precisamos lembrar como encontramos a administração pública do Brasil." A afirmação é duplamente contestável. Primeiro, porque sugere ter sido um descalabro a gestão do governo anterior. Isso é falso. Embora a modernização do aparelho federal tenha ficado aquém do que pretendia o presidente Fernando Henrique – até em razão das resistências corporativas estimuladas pelo PT –, ele não só tinha uma visão do problema mais avançada do que a do seu sucessor, como ainda lhe entregou um Estado menos arcaico do que recebera. Segundo, porque, qualquer que fosse a situação que o novo governo encontrou, quase sempre conseguiu piorá-la, antes de mais nada devido à sua obsessão em reinventar a roda.
O corpanzil burocrático tornou-se ainda mais volumoso, com a proliferação de ministérios e secretarias inventados para mostrar "vontade política" de resolver problemas e, sobretudo, acomodar companheiros malsucedidos nas urnas. Diversos destes se revelaram tão incompetentes para administrar os seus setores quanto haviam sido para conquistar o eleitor. Com atribuições não raro redundantes, resultado inevitável da hipertrofia do corpo burocrático, ficaram batendo cabeça e tentando passar rasteiras uns nos outros. Além de transformar o Executivo em um espécime pesado em excesso para se mover e trapalhão em excesso para achar o bom caminho, os recém-chegados promoveram o maior entra- e-sai nos níveis superiores e médios do aparato federal pelo menos desde o fim do regime militar, em 1985. Foi a apoteose do aparelhamento – a premiação daqueles cuja credencial mais luzidia é a carteirinha partidária, com o afastamento de administradores capacitados e experientes em navegar pela burocracia.
No Brasil nunca faltaram governos marcados pelo nepotismo – hoje mesmo, o do Paraná de Roberto Requião é um escândalo. Já a marca do governo Lula é a do "nepetismo", a distribuição da massa disponível de cargos de confiança entre os quadros do PT e das siglas aliadas, com as conseqüências que se viu, por exemplo, no desfiguramento do outrora modelar Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.
Outra característica que deve contribuir para o cansaço do ministro Dirceu é a baixa qualidade do processo decisório. O verdadeiro parto que foi o projeto sobre os transgênicos enviado semanas atrás ao Congresso e os graves defeitos congênitos do texto enfim dado à luz são apenas um tropeço entre muitos de um governo que lida mal com as próprias pernas. Mesmo quando um ministro ou o presidente identificam corretamente um problema a resolver, a forma de fazê-lo lembra muitas vezes a proverbial emenda pior que o soneto. Nesse sentido, a suspensão da aposentadoria aos jubilados com mais de 90 anos, enquanto não se recadastrassem, é um caso de manual. O Ministério da Previdência sabe que paga benefícios a pessoas já falecidas e quer acabar com essa fraude. Pois bem. De todas as formas concebíveis de enfrentar a questão, adotou a mais primitiva, com o típico vezo autoritário dos poderosos de turno de não parar para pensar no que o seu imaginário ovo de Colombo representaria para as pessoas de carne e osso.
O presidente Lula acaba de fazer a sua parte nessa seqüência de equívocos. O Congresso havia aprovado – com parecer favorável do Ministério da Educação – o repasse de recursos do Fundo para o Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental (Fundef) para instituições de ensino sem fins lucrativos que acolham alunos portadores de deficiência. Isso contraria pela base a emenda constitucional que criou o Fundef, exclusivo para a rede pública. Pois bem. Por não ter oferecido outra alternativa durante a tramitação da matéria, só restou ao presidente vetar a lei. Mas o fez de supetão – o ato caiu no Legislativo como um raio em céu azul – e, o que é pior, sob o antipático argumento de que a iniciativa comprometeria o ajuste fiscal. Até parlamentares do PT reagiram com indignação. Armada a encrenca, só então o presidente se lembrou de cobrar do ministro da Educação uma fórmula para os alunos excepcionais. O governo Lula precisa de uma urgente revisão."
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pensamentos de outros,
PT
Refelxões sombrias.
21 de septiembre de 2006
Os últimos acontecimentos políticos envolvendo o PT com (mais) uma falcatrua me deixa algumas sensações claras:
1 – O Brasil está tendo a excelente oportunidade de se desenvolver e de aprender com os muitos erros cometidos num ato tão simples e importante como votar. Não acho que o PT seja pior do que muitos outros partidos. Simplesmente estava, e felizmente já não está, vestido com trajes de virgem imaculada, e isso foi suficiente para uma parcela importante do povo brasileiro. Faltou escola, arroz e feijão para perceber que era só um partido mais. Agora, felizmente, está ficando claro para cada vez mais gente que o PT não é mais do que é: uma agrupação que vendeu a alma ao diabo, teve que entregar, e agora está vazio de conteúdo, de idéias, de propostas. Passou a ser só uma casca vazia, onde se escondem as criaturas mas escabrosas, que vão se dedicar a fazer o que sabem melhor.
2 – Dias piores virão. O PT já era como organização política. Perdeu o rumo, o caráter e a compostura. Lamentavelmente tudo indica que o carisma pessoas de um só homem no partido vai ser suficiente para levá-lo ao Planalto por mais 4 anos. E o que vai acontecer então? Com quem vão se aliar? Qual vai ser sua base parlamentar? Provavelmente os mesmos anões, mensaleiros e sanguessugas de sempre. E aí o que vai acontecer? Mais do mesmo, mais falcatruas, mais roubalheiras, e nenhum passo adiante. Como aprovar uma reforma política que poderia diminuir a promiscuidade parlamentar, reduzir o numero de partidos e melhorar sua representatividade num congresso desses? Não vai haver estímulo ou vergonha na cara que bastem. E em 4 anos mais, quem sabe, vamos estar como em 1994. Se tivermos sorte.
3 – Dias piores virão II – Para conseguir seu propósito “reeleitoral”, a presidência lançou o seu “pacote de bondades” sem olhar para o saldo no banco. Afinal, o Brasil é um país rico. Tão rico como a Argentina quando deixou de pagar sua dívida externa. Agora, lançou um orçamento 2007 que é uma obra de ficção, e que, com a capacidade administrativa desse governo, não vai se cumprir. Vamos terminar 2007 com um rombo gigante nas contas publicas, o superávit primário vai se transformar numa mochila excessivamente pesada para carregar, e as tentações serão fortes. E em 4 anos mais, quem sabe, vamos estar como em 1994. Se tivermos sorte.
4 – Dias Piores virão III – Talvez o pior legado de la era Lula para o Brasil não seja a desordem generalizada que vai deixar na coisa pública, nem os rombos orçamentários, nem perder a oportunidade de crescer num panorama internacional excepcional. Para mim, o mais doloroso é ver a legitimação da malandragem, da falta de caráter e da patifaria. O PT urdiu um esquema eficiente de neutralização de entidades de classe que faz com que tudo pareça normal. Que ninguém está indignado. E o povo dos grotões do Brasil, que recebem a migalha mensal que não lhes ensina nada, vê o que ocorre, vê a nula reação coletiva, e começa a assimilar a mensagem: Para que estudar? Para que seguir o caminho correto e quase sempre mais duro? Para que ser honesto? Onde esto os caras pintadas? Um país está perdendo seu caráter, e isso e muito, muito grave. Choro pelo futuro desse país.
5 – E por quê? – Quando olhamos para esta palhaçada chamada governo, e para o público que, entre pasmo e ignorante nada faz, poderíamos perguntar-nos como chegamos a este ponto? Para mim, a resposta está clara: o PT cresceu no vácuo da oposição. Se a oposição fosse realmente melhor que o PT, não seria oposição. Na favela não tem policia nem governo e o tráfico ocupa seu espaço. Nas cadeias não tem policia nem governo e as facções criminosas ocupam seu espaço. Não são sintomas isolados, são pequenos fragmentos de uma realidade bem mais abrangente. Por décadas classes dirigentes pouco preparadas e com princípios questionáveis geraram o caldo de cultivo para que a semente do PT germinasse sem maiores questionamentos. Miséria, falta de escola, falta de perspectivas, falta de respeito transformaram uma enorme massa de brasileiros em votos que valem uma cesta básica mensal. O Brasil é muito, muito mais rico que isso, e o que sobra da conta das cestas básicas pode ser repartido entre os poucos habitantes dos palácios, públicos e privados.
Das cinzas a Fênix renascerá – Talvez...
Talvez o senso de autopreservação das classes “formadoras de opinião” seja suficientemente desenvolvido para perceber que é necessário, imprescindível, repartir um pouco melhor a torta, para diminuir o espaço de manobra de populistas e pelegos. É uma questão de sobrevivência para estas classes. Não se trata de vender seu automóvel popular para andar de ônibus. O buraco pode estar (muito) mais para cima do que as classes assalariadas, independentemente do tamanho do salário.
Talvez dê tempo de impedir que uma estrutura política corrupta e bem organizada surja no vazio do planalto, arraigando-se por lá, novos Chavez tropicais. Talvez não.
Os últimos acontecimentos políticos envolvendo o PT com (mais) uma falcatrua me deixa algumas sensações claras:
1 – O Brasil está tendo a excelente oportunidade de se desenvolver e de aprender com os muitos erros cometidos num ato tão simples e importante como votar. Não acho que o PT seja pior do que muitos outros partidos. Simplesmente estava, e felizmente já não está, vestido com trajes de virgem imaculada, e isso foi suficiente para uma parcela importante do povo brasileiro. Faltou escola, arroz e feijão para perceber que era só um partido mais. Agora, felizmente, está ficando claro para cada vez mais gente que o PT não é mais do que é: uma agrupação que vendeu a alma ao diabo, teve que entregar, e agora está vazio de conteúdo, de idéias, de propostas. Passou a ser só uma casca vazia, onde se escondem as criaturas mas escabrosas, que vão se dedicar a fazer o que sabem melhor.
2 – Dias piores virão. O PT já era como organização política. Perdeu o rumo, o caráter e a compostura. Lamentavelmente tudo indica que o carisma pessoas de um só homem no partido vai ser suficiente para levá-lo ao Planalto por mais 4 anos. E o que vai acontecer então? Com quem vão se aliar? Qual vai ser sua base parlamentar? Provavelmente os mesmos anões, mensaleiros e sanguessugas de sempre. E aí o que vai acontecer? Mais do mesmo, mais falcatruas, mais roubalheiras, e nenhum passo adiante. Como aprovar uma reforma política que poderia diminuir a promiscuidade parlamentar, reduzir o numero de partidos e melhorar sua representatividade num congresso desses? Não vai haver estímulo ou vergonha na cara que bastem. E em 4 anos mais, quem sabe, vamos estar como em 1994. Se tivermos sorte.
3 – Dias piores virão II – Para conseguir seu propósito “reeleitoral”, a presidência lançou o seu “pacote de bondades” sem olhar para o saldo no banco. Afinal, o Brasil é um país rico. Tão rico como a Argentina quando deixou de pagar sua dívida externa. Agora, lançou um orçamento 2007 que é uma obra de ficção, e que, com a capacidade administrativa desse governo, não vai se cumprir. Vamos terminar 2007 com um rombo gigante nas contas publicas, o superávit primário vai se transformar numa mochila excessivamente pesada para carregar, e as tentações serão fortes. E em 4 anos mais, quem sabe, vamos estar como em 1994. Se tivermos sorte.
4 – Dias Piores virão III – Talvez o pior legado de la era Lula para o Brasil não seja a desordem generalizada que vai deixar na coisa pública, nem os rombos orçamentários, nem perder a oportunidade de crescer num panorama internacional excepcional. Para mim, o mais doloroso é ver a legitimação da malandragem, da falta de caráter e da patifaria. O PT urdiu um esquema eficiente de neutralização de entidades de classe que faz com que tudo pareça normal. Que ninguém está indignado. E o povo dos grotões do Brasil, que recebem a migalha mensal que não lhes ensina nada, vê o que ocorre, vê a nula reação coletiva, e começa a assimilar a mensagem: Para que estudar? Para que seguir o caminho correto e quase sempre mais duro? Para que ser honesto? Onde esto os caras pintadas? Um país está perdendo seu caráter, e isso e muito, muito grave. Choro pelo futuro desse país.
5 – E por quê? – Quando olhamos para esta palhaçada chamada governo, e para o público que, entre pasmo e ignorante nada faz, poderíamos perguntar-nos como chegamos a este ponto? Para mim, a resposta está clara: o PT cresceu no vácuo da oposição. Se a oposição fosse realmente melhor que o PT, não seria oposição. Na favela não tem policia nem governo e o tráfico ocupa seu espaço. Nas cadeias não tem policia nem governo e as facções criminosas ocupam seu espaço. Não são sintomas isolados, são pequenos fragmentos de uma realidade bem mais abrangente. Por décadas classes dirigentes pouco preparadas e com princípios questionáveis geraram o caldo de cultivo para que a semente do PT germinasse sem maiores questionamentos. Miséria, falta de escola, falta de perspectivas, falta de respeito transformaram uma enorme massa de brasileiros em votos que valem uma cesta básica mensal. O Brasil é muito, muito mais rico que isso, e o que sobra da conta das cestas básicas pode ser repartido entre os poucos habitantes dos palácios, públicos e privados.
Das cinzas a Fênix renascerá – Talvez...
Talvez o senso de autopreservação das classes “formadoras de opinião” seja suficientemente desenvolvido para perceber que é necessário, imprescindível, repartir um pouco melhor a torta, para diminuir o espaço de manobra de populistas e pelegos. É uma questão de sobrevivência para estas classes. Não se trata de vender seu automóvel popular para andar de ônibus. O buraco pode estar (muito) mais para cima do que as classes assalariadas, independentemente do tamanho do salário.
Talvez dê tempo de impedir que uma estrutura política corrupta e bem organizada surja no vazio do planalto, arraigando-se por lá, novos Chavez tropicais. Talvez não.
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